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2019-01-09
"Saúde mental: Viver a doença com liberdade e humanismo"
"Psiquiatria: viver a doença com liberdade e humanismo" "Acompanhámos o trabalho de uma equipa do programa de psiquiatria comunitária do Centro Hospitalar de Leiria. E conhecemos Sérgio, um utente com um historial de internamentos que, graças a uma rede de apoio, está a conseguir autonomizar-se. Mal o motor do carro se cala, Sérgio assoma por detrás da casa. Vem em passo acelerado. Mãos no bolso. No rosto, um sorriso genuíno e contagiante, que manterá ao longo do tempo em que durará a visita das técnicas que integram o PsiCom, um projecto de psiquiatria comunitária que arrancou este ano no Centro Hospitalar de Leiria (CHL). “A injecção é só no dia 21”, atira Sérgio, em direcção à enfermeira Luísa Bicker que, há mais de dez anos, percorre o mesmo caminho que naquela manhã de Dezembro a equipa do PsiCom fez, para lhe aplicar um antipsicótico injectável. Esquizofrénico e com défice cognitivo, Sérgio transporta consigo um vasto historial de internamentos. Durante anos, a sua vida dividiu-se entre a unidade de agudos do Serviço de Psiquiatria do Hospital de Leiria e a casa que partilhava com a avó, que deixou de ter condições para cuidar dele. Passou depois pela unidade de psiquiatria dos Andrinos. Aí, estava seguro, protegido, tratado, mas faltava-lhe a liberdade que tanto preza. A liberdade de passar o dia em cima da bicicleta, mesmo que o tempo esteja chuvoso ou que o frio se entranhe pelo corpo. “O Sérgio é feliz a andar de bicicleta”, conta Andreia Tarelho, uma das duas psiquiatras que integram o projecto. Não acompanha todas as visitas – “o médico vem quando há necessidade de avaliação”, explica -, mas reconhece as vantagens de ver o doente fora do ambiente “hermético” da consulta. “No local, percebemos a realidade em que vivem, como interagem. O ambiente à sua volta diz muito do seu estado mental”, nota a psiquiatra, que defende que “o doente mental grave tem direito a viver a vida que escolher, desde que se garanta que está seguro e que tenha o apoio da comunidade”. E Sérgio escolheu. Estabilizada a doença, regressou à aldeia. Vive na casa que herdou da mãe, mas, no dia-a-dia, conta com o apoio e a supervisão de dois tios que vivem por perto, do Centro Social e Paroquial de Souto da Carpalhosa, que lhe fornece refeições, e da equipa hospitalar. Vive sozinho, mas não está só. Além da rede de apoio, conta também com a sua inseparável companheira, a bicicleta, que naquela manhã está parada, encostada a uma das paredes da casa. Quieta, mas por pouco tempo. Será, aliás, montado nela que Sérgio se despedirá da equipa até à próxima visita. Ao abrir a porta, os primeiros elogios e incentivos do dia, pela voz da assistente social. “Temos melhorias”, diz Célia Bonifácio, que parece ignorar as beatas espalhadas um pouco por toda a casa. Em cima da mesa, há fruta fresca, que a tia lhe trouxe, e o que sobrou do pequeno-almoço. O ambiente é frio, mas Sérgio não se queixa. Acorre, feliz, a apontar para o esquentador novo. “Tenho água quente”, diz, voltando-se para a assistente social, que já está indicada para ser a sua terapeuta de referência. Virá todas as semanas e ficará responsável pela gestão do cuidados ao doente, funcionando como elo de ligação entre ele e a rede de apoio. “Treino” na organização da casa Entre as missões da assistente social está o treino para a organização da casa. Naquele dia, a tarefa começa no quarto de Sérgio, onde há roupa amontoada no chão e beatas a cobrirem a mesa de cabeceira. Uma desordem que contrasta com a arrumação e a limpeza do quarto que foi da mãe, onde a cama está irrepreensivelmente feita. A de Sérgio também assim ficará no final da visita, tal como o seu quarto, onde tem início o “treino” daquele dia." Fontes: Jornal de Leiria https://www.jornaldeleiria.pt/noticia/psiquiatria-viver-doenca-com-liberdade-e-humanismo-9653 03.01.2019



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